09/01/2018

LEITURAS | O Carteiro e o Poeta (2017)

Se apaixonar é uma coisa complicada.

Quem nunca sentiu aquele frio na barriga quando estava perto do crush, não sabe o que é ansiedade. A gente fica sem saber o que dizer, com o coração martelando forte dentro do peito e as mãos molhadas de suor. 

Ah!, se ao menos a gente tivesse aquela segurança, aquele domínio e talento com as palavras pra saber dizer as coisas mais bonitas... Virar um poeta da noite para o dia, e fazer desse sentimento pura poesia diante do mundo.  


Mário Jiménez é o jovem filho de um pescador. Morador de Isla Negra, um povoado pesqueiro na costa do Chile, ele gasta seus dias tentando ganhar algum trocado para gastar no cinema ou comprando revistas de conteúdo adulto. Um dia, transitando pelo vilarejo, Mário se depara com um aviso colado na janela do Correio local: precisa-se de um carteiro.

Assim, Mário Jiménez ganha sua primeira (grande) oportunidade na vida: entregar diariamente uma remessa de cartas destinadas ao único morador letrado de toda a Isla Negra, o célebre poeta Pablo Neruda.

A princípio, Mário Jiménez vê nessa empreitada uma nova fonte de sustentar seu vício e admiração por mulheres bonitas. Mas a medida que vai conhecendo Neruda, tanto através de diálogos como também da leitura, o jovem carteiro descobre no poeta uma fonte de inspiração e, também, um amigo, transformando sua existência de modo significativo.

Na verdade, a relação de amizade entre Neruda o Mário Jiménez se consolida através da bela Beatriz, a garçonete de um pub local que, com suas roupas apertadinhas e sensualidade, se torna a musa inspiradora das primeiras poesias do jovem carteiro.


"O Carteiro e o Poeta" é uma história sobre pessoas comuns, mas repletas de importância. Mário Jiménez é um rapaz humilde, quase analfabeto, que descobre através da leitura e da poesia, uma nova forma de se expressar e de falar de seus sentimentos. Uma das cenas mais divertidas do livro é quando o poeta impaciente ensina seu jovem carteiro (e, agora, aprendiz) o que são metáforas.

- Eu ia como um barco balançando em suas palavras.
As pálpebras do poeta se despregaram lentamente.
- Sabe o que você fez, Mário?
- O quê?
- Uma metáfora
- Mas não vale, saiu por acaso!
- Não há imagem que não seja casual, filho.

"O Carteiro e o Poeta", página 29

Através da amizade com o poeta, Mário Jiménez descobre em si mesmo a capacidade de realizar algo simples e, ao mesmo tempo, belo. Parece improvável que um jovem que, a princípio, tem pouco ou nenhum apreço pelas palavras descubra em si mesmo as ferramentas necessárias para se inspirar e escrever seus próprios versos, mas é justamente sobre isso que trata este romance.

Qualquer pessoa pode olhar para o mundo com os olhos de um poeta, mas é preciso ter sensibilidade e leveza para transformar o mundo em poesia. 

Trecho do filme "O Carteiro e o Poeta", vencedor do Oscar em 1994.

Publicado inicialmente em 1985, "O Carteiro e o Poeta" ganhou uma adaptação para o cinema em 1994, vencedora do Oscar de Melhor Trilha Sonora no mesmo ano. Contudo, poucas pessoas sabem que o longa-metragem é baseado no livro homônimo do escritor chileno António Skármeta. 

Essa não é a única adaptação de Skármeta para o cinema. Em 2017, o ator e diretor brasileiro Selton Melo esteve a frente da adaptação de outro livro do autor, "Um Pai de Cinema", que chegou aos cinemas brasileiros sob o título de "O Filme da Minha Vida".

Apesar de ter grande prestígio no Chile, António Skármeta é pouco conhecido nas estantes brasileiras. Sua obra mais famosa por aqui é justamente a que ilustra essa resenha.

Pablo Neruda foi um ilustre autor chileno ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, em 1971. Mas seu sucesso como escritor vai muito além dos prêmios literários. Neruda era conhecido, também, como o poeta do amor. Suas poesias, repletas de sentimento e erotismo, encantavam principalmente o público feminino. Sabe-se também que a vida amorosa do escritor era quase tão intensa quanto suas poesias.

Comunista, o poeta foi alvo de muitas perseguições políticas ao longo de toda a vida, principalmente na época em que, associado ao Partido Comunista Chileno, Neruda quase chegou a candidatar-se à presidência da república, desistindo do posto no ultimo instante e passando o bastão ao candidato Salvador Allende.

Diferente do filme de 1994, que situa-se na Itália na década de 50, o livro escrito por Skármeta se passa na década de 70, no Chile, mais precisamente na aldeia pesqueira de Isla Negra, lugar onde Pablo Neruda costumava se refugiar para trabalhar em seus escritos. Inclusive, a casa onde Neruda costumava se refugiar é, nos dias de hoje, um dos pontos turísticos mais famosos do Chile.

Casa do poeta Pablo Neruda em Isla Negra, Chile.

Embora tenha apenas 176 páginas, o livro narrado em terceira pessoa conta com uma linguagem quase tão primorosa quanto a poesia. Eu mesmo tive que reler alguns trechos, principalmente nos diálogos entre Neruda e o carteiro, para compreender melhor a profundidade da narrativa.

Em 2017, o Grupo Editorial Record trouxe uma nova roupagem ao livro de António Skármeta. O exemplar que eu li foi presente da amiga Luiza, do blog Os Livros de Bela. Inclusive, convido vocês não só a conhecem o espaço virtual dela, como também a conferirem a opinião da Luiza sobre esse livro incrível.

"O Carteiro e o Poeta" pode ser facilmente lido em uma tarde, mas eu particularmente recomendo que você aprecie o livro aos poucos, como um livro de poesia mesmo. E claro, vale a pena assistir à adaptação de 1994 também, principalmente pela trilha musical e pela atuação de Massimo Troisi que, de forma brilhante, dá vida ao personagem do jovem carteiro aspirante a poeta.


Título: O Carteiro e o Poeta
Autor: António Skármeta
País: Chile
Ano: 2017  Páginas: 176
Editora: Record




"A poesia tem comunicação secreta com os sofrimentos do homem."
Pablo Neruda

Um comentário:

  1. Que resenha cheia de sentimento e palavras bonitas. Acho que você conseguiu passar muito bem, através de suas palavras, essa questão de que todo mundo pode olhar o mundo (ou escrever uma resenha) com olhos de um poeta. Gostei bastante da proposta do livro e, com certeza, adoraria lê-lo. Obrigada pela dica!

    Cris
    Blog Catarse Literária

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Ser um leitor preguiçoso é curtir uma boa narrativa todos os dias, sem pressa de acabar, e deixar que aquela história te preencha e faça parte de você, mesmo depois que a leitura já tiver terminado.




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