15/08/2017

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

   Se eu te pedisse para fechar os olhos agora e imaginar um mundo perfeito, como você o descreveria? Com certeza, você imaginaria um mundo sem guerras ou conflitos, onde todo mundo se respeita e convive em paz e harmonia, certo?

   Em 1947, o autor norte-americano Ray Bradbury se pegou tendo uma ideia bem parecida. Mas na realidade que o autor imaginou, as coisas são um pouquinho diferentes: as pessoas passam o dia entorpecidas por medicamentos calmantes, enquanto assistem a programas de tevê que te deixam bitolado. E, como se isso não fosse ruim o suficiente, nessa outra realidade os livros são artefatos muito perigosos e, por isso, ler é terminantemente proibido.

 
   451 Fahrenheit, ou 233 Celsius, seria mais ou menos a temperatura necessária para fazer o papel queimar. Este é, também, o título do clássico da ficção científica escrito por Ray Bradbury e publicado pela primeira vez em 1953. A ideia original surgiu a partir de um conto escrito pelo autor, como uma crítica a crescente e perturbada sociedade americana.

   A narrativa se passa em uma sociedade distópica, onde os livros – qualquer tipo de livro – são proibidos. Nessa sociedade, os bombeiros não se ocupam mais da corajosa tarefa de apagar incêndios, muito pelo contrário. Eles agora dão início às chamas, encontrando e queimando todo o tipo de material de leitura que estiver em seu caminho.

 
   Diferente de outras distopias, como 1984 (George Orwell), Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley) e Laranja Mecânica (Anthony Burgess), onde existe uma figura central ou governo autoritário que controla a sociedade a rédeas curtas, selecionando a que tipo de informação as pessoas podem ter acesso e contribuindo para que a ignorância seja um mal coletivo, em Fahrenheit 451 não existe um governo autoritário que impõe as regras. Nesse livro, as pessoas decidem, por vontade própria, abrir mão do seu direito à leitura e do livre acesso à informação, para viver numa sociedade “pacífica”, onde tudo é baseado no entretenimento eletrônico e no consumo.

   É por isso que, nessa sociedade imaginada por Bradbury, os livros são tão perigosos. Os livros têm esse poder de fazer a gente refletir, se emocionar, se sentir inquieto, como se alguma coisa lá dentro da gente finalmente despertasse. Em outras palavras, os livros fazem a gente pensar, e é justamente isso que a sociedade de Fahrenheit 451 não quer. 

 
   Guy Montag é um bombeiro bastante satisfeito com sua profissão. Vale lembrar que, nessa sociedade distópica, os bombeiros não apagam incêndios, e sim colocam fogo em bibliotecas clandestinas a partir das denúncias da comunidade – imagina que aquela sua vizinha fofoqueira te dedurou pra polícia, porque viu você contrabandeando livros na calada da noite; a tarefa de Montag seria invadir a sua casa, para encontrar e queimar todo e qualquer livro que você possa ter escondido.

   Certo dia, voltando de mais um dia de trabalho, Montag acaba topando com uma figura meio inusitada. Clarisse McClellan, sua vizinha, é uma adolescente meio dilua, dessas que gostam de puxar conversa com estranhos e de observar a natureza. Para uma sociedade onde todo mundo vive com a cara colada na frente da televisão, vinte e quatro horas por dia, uma pessoa com o jeitinho de Clarisse seria considerada, no mínimo, uma figura bizarra. E é mais ou menos isso que Montag pensa dela, a princípio. 

   Mas à medida que Clarisse e Montag vão se conhecendo – já que quase todo dia, quando ele volta do trabalho, ela está ali na sua calçada contemplando a natureza e falando esquisitices – ele vai percebendo outros traços na personalidade da menina. Aos poucos, a gentileza e a inteligência sutil de Clarisse começam a colocar as engrenagens da mente de Montag para funcionar e, de repente, ele se pega tendo alguns pensamentos e ideias que, antes, ele costumava repudiar.

   Em um dado momento da narrativa, o esquadrão de bombeiros do qual Montag faz parte é chamado para incendiar uma biblioteca clandestina encontrada na casa de uma velhinha, a partir de uma denúncia. Contrariando o pedido dos bombeiros, a senhora criminosa se recusa a deixar sua casa e decide, então, morrer queimada junto com seus livros. E é justamente esse episódio tenebroso que acaba por ser a fagulha que ateia fogo no coração e na mente de Montag.

   A partir desse episódio, nosso bombeiro protagonista começa a se dar conta do horror que ele e seus colegas estão ajudando a espalhar, e em como eles estão contribuindo para manter uma sociedade ignorante, incapaz de pensar, sentir, se emocionar... uma sociedade robotizada. E é então, meus amigos, que Montag se torna o grande herói – ou melhor, o anti-herói – dessa história. Ao invés de queimar livros, ele decide resgatá-los, montando seu próprio acervo clandestino.


   Ao descobrir a literatura, Montag acaba descobrindo o poder contido nos livros, isto é, a capacidade que a leitura tem de nos despertar sensações, de nos fazer pensar e refletir. Ao entrar em contato com os pensamentos, as angústias e os sentimentos de tantos autores e seus personagens, ele acaba descobrindo o quão repugnante é a condição em que sua sociedade vive, incluindo ele próprio. E isso o impulsiona a querer mudar, a querer viver num mundo diferente – e, ainda assim, tem gente que diz que a leitura é desperdício de tempo.

   Fahrenheit 451 é um clássico da Ficção Científica e, mais ainda, do gênero da distopia.  Apesar de ter sido escrito na década cinquenta, o livro de Ray Bradbury não tinha como ser mais atual. Não é difícil imaginar a sala de estar na casa de Montag, onde a televisão cobre toda a parede, do chão ao teto, como também não é difícil imaginar um mundo onde as pessoas vivem como robôs, só compartilhando e consumindo um entretenimento irrelevante, que só deixa todo mundo ainda mais bitolado – porque isso já é bem próximo da realidade em que a gente vive hoje.

  Eu, particularmente, torço para que a nossa sociedade nunca faça a mesma escolha que os personagens de Fahrenheit 451, não só pelo terrível pesadelo que seria ver os livros sendo queimados, mas também por saber que a gente perderia o direito de rir, de chorar, de refletir e se emocionar graças a este artifício maravilhoso que é a leitura.
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Título: Fahrenheit 451
Autor: Ray Bradbury
Gênero: Ficção Científica / Distopia
Ano: 2012 / Páginas: 216
Editora: Biblioteca Azul

Onde comprar: Amazon, Livraria Cultura, Saraiva.
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13/08/2017

Amizades Improváveis (The Fundamentals of Caring)


Pense em um número entre 1 e 3.500.

Muito provavelmente, eu e você não vamos pensar no mesmo número. As chances de isso acontecer são as mesmas de uma pessoa desenvolver distrofia muscular do tipo Duchenne, ou distrofia muscular pseudo-hipertrófica, uma doença hereditária e degenerativa que afeta diretamente o desenvolvimento dos músculos do corpo. 

Trevor (Craig Roberts) é o "felizardo" garoto premiado na loteria da vida. Aos 3 anos de idade, ele foi diagnosticado com distrofia muscular do tipo Duchenne e, desde então, vive preso a uma cadeira de rodas, e possui poucos movimentos corporais. Sua mãe, Elsa (Jennifer Ehle), luta com todos os esforços para garantir que o filho adolescente consiga desfrutar ao máximo dos anos de vida que ainda lhe restam.

Ben Benjamin (Paul Rudd) é um escritor aposentado com um passado doloroso e várias questões não resolvidas. Desesperado por um emprego e com a ex-mulher em sua cola, ele conclui um curso de 6 semanas para se tornar um "caregiving" ou, na tradução, um acompanhante cuidador.


 É assim que os caminhos de Ben e Trevor acabam se cruzando. 

Os dois personagens que protagonizam "Amizades Improváveis" (The Fundamentals of Caring) possuem uma química excelente juntos. Enquanto Trevor é um adolescente sarcástico, indiferente ao mundo ao seu redor, Ben é do tipo inseguro, que leva uma vida inteiramente bagunçada. Parece pouco provável que um consiga ajudar o outro, mas acredite: isso acontece. Apesar do tom melancólico, o filme não apela para o sentimentalismo barato, muito pelo contrário.

O longa é baseado no livro quase homônimo de Jonathan Evison, um escritor norte americano, famoso por seus livros All About Lulu, This is Your Life, Harriet Chance! e, claro, The Revised Fundamentals of Caring, que ganhou uma adaptação para a Netflix em 2016. O filme conta com a direção de Rob Burnett, cujo humor e sensibilidade ficam bem apresentados no filme. Responsável também pela adaptação do livro para o roteiro cinematográfico, Burnett consegue usar de forma brilhante o sarcasmo como alívio cômico em um filme com uma temática que costuma direcionar ao drama. Quando você menos espera, Paul Rudd e Craig Roberts estão te fazendo prender a respiração para, logo em seguida, soltar boas risadas.



O longa tem uma pegada meio road-movie, e até lembra um pouco Pequena Miss Sunshine. Decidido a tirar Trevor da zona de conforto e fazê-lo aproveitar os anos que ainda lhe restam, Ben convence o garoto a ir numa viagem pela estrada, rumo ao buraco mais fundo mundo, nos Estados Unidos. No caminho, eles acabam conhecendo Dot (Selena Gomez), uma garota meio rebelde que, após perder a mãe, decide viajar sozinha pela estrada e chegar em Denver, onde pretende recomeçar sua vida. Dot acaba se juntando à dupla improvável, para o deleite e o desespero do nosso jovem protagonista que, até então, nunca teve contato com uma garota.

 

Um dos pontos mais positivos do longa é, sem dúvida, a trilha sonora - nostálgica e familiar, na medida certa. A canção This Is The Only Time We Have, de Ryan Miller, é a que melhor traduz o sentimento por trás do roteiro: coisas ruins acontecem com a gente todos os dias. O que nos diferencia uns dos outros não são as dificuldades que enfrentamos, mas o que decidimos fazer diante delas.

The Fundamentals of Caring é um filme engraçado, despretensioso e, em vários momentos, surpreendente.  Uma comédia leve, com um tom melancólico e sarcástico, pra assistir numa tarde de domingo, rir, se emocionar e refletir.

O filme está disponível no catálogo do serviço de streaming desde o 24 de Junho de 2016.
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10/08/2017

Como assim leitor preguiçoso?

   Eu não sei você, mas eu já perdi as contas de quantas vezes já comecei um blog na Internet. Acho que minha primeira participação na blogosfera foi um finado blog dedicado ao universo Harry Potter, que chegou a fazer até um pequeno sucesso - e olha que isso foi no tempo pré-histórico da Internet, onde a gente tinha Internet discada e só dava pra conectar nos finais de semana.

   De lá pra cá, a variedade foi tamanha: um blog dedicado a cultura japonesa, outro de textões emo-góticos, e outro ainda só de poesias coletivas. Cheguei a ter uma breve experiência com blogs literários também, mas nada que tenha vingado por mais do que alguns meses. Alguma coisa sempre me fazia acabar enjoando e abandonando o projeto... para, logo depois, começar tudo de novo.

   Mas então eu tive uma ideia, uma coisa que realmente me deixou bem empolgado! "Por que não criar um novo espaço virtual onde eu pudesse escrever sobre tudo aquilo que eu gosto [livros, filmes, séries, etc.] e escrever sobre minhas percepções malucas e distorcidas da realidade (sem uso de entorpecentes, claro)?"

   Foi então que comecei a trabalhar nesse novo projeto. Mas todo projeto precisa de um nome, e isso pra mim é muito importante! Eu precisava de um título bacana, algo que tivesse a ver comigo logo de cara e, ao mesmo tempo, despertasse a curiosidade das pessoas - a ponto de fazer com que elas tivessem vontade de ler mais. 

   Depois de quebrar a cabeça por um tempo, o nome que me ocorreu foi Mar de Vícios. Pensa só: "somos um bando de capitães, e nossas vidas são os barquinhos; estamos sempre perdidos, navegando por um imenso mar de vícios, tentando nos encontrar..." Parecia promissor, então eu logo tratei de fazer a ideia sair da caixola e ganhar cores e formas. Mas de novo, aquela desmotivação fez o trem descarrilar. Algo no título e, acima de tudo, no layout, me incomodava. E eu não sabia explicar o que era.

   Foi então que, folheando um livro do Mario Quinta, eu li algo que fez minha mente voltar a maquinar:
   Comparar a vida com um livro é uma das imagens mais batidas. Que importa? Novidade não é documento. Mas que ansiosa leitura, que suspense. Por que pode terminar sem mais nem menos, às vezes em meio de um capítulo, de uma frase...e, assim, a gente tem que saborear linha por linha, minha filha, para fazê-lo render o mais possível: nada de leitura dinâmica. (QUINTANA - O Livro da Vida)
   Eu nunca tinha me sentido tão representado num parágrafo como quando li esse trecho. Eu gosto de ler devagar, gosto de ir curtindo a história e, às vezes, até paro a leitura na metade, só pra pensar em tudo o que tá acontecendo na narrativa ou, no caso da não-ficção, recordar tudo o que o autor já me contou até aquele ponto. Eu sou assim, sou um leitor preguiçoso.


   Voilà! Encontrei o título perfeito, o termo que me define como leitor, como apreciador não só de bons livros, mas de toda boa narrativa, seja ela um filme, um episódio de uma série, um quadrinho, um mangá, uma bula de remédio. Eu sou um leitor preguiçoso, gosto de aproveitar cada pedacinho da viagem, e deixar a narrativa me mostrar o que ela tem melhor!

   Sabe quando você tem uma ideia incrível, mas te faltam as habilidade necessárias pra fazer essa ideia acontecer? Pois é, foi justamente esse o meu caso. Quando criei a primeira versão desse blog, eu senti que ele merecia mais do que um simples layout da plataforma Blogger. Já que eu estava/estou me propondo a ser um gerador de bom conteúdo, então nada mais justo do que cumprir essa missão num cenário especialmente desenvolvido pra isso, certo?

   Depois de pesquisar um pouquinho, de conversar com alguns amigos que também são rolezeiros blogueiros, encontrei a fada madrinha que ajudou a transformar minha abóbora numa carruagem. A Fernanda Gonçalves, do Sweet Layouts, foi incrivelmente paciente e atenciosa com cada uma das minhas considerações - e pode acreditar quando eu digo que foram muitas! Passamos praticamente todo o mês de Julho trabalhando nas ideias para o novo layout do blog, ajustando cada pequeno detalhe para, agora, chegar nesse baile numa carruagem digna não da Cinderella, mas de Vorazes & Curiosos (minha paródia, pode rir se quiser, nem ligo). 

   O resultado está aqui: um layout minimalista e, ao mesmo tempo, dinâmico - exatamente o que eu queria para o meu espaço virtual na Internet. Fala sério, tá tão incrível que eu fico acessando o tempo todo, só pra ficar namorando o novo layout. E o mais legal é que esse novo visual só me deixa ainda mais inspirado para escrever e compartilhar com a blogosfera um pouquinho das minhas leituras e minhas percepções do cotidiano. 

   E, por falar nisso, vou te contar agora como isso aqui vai funcionar:

Terça-feira - LEITURAS: compartilho com você a minha leitura da semana, seja um livro, um quadrinho, um mangá... o material narrativo mais próximo. Todo mês, vou me esforçar em trazer pra vocês ao menos um título de Fantasia, um título de Ficção-Científica, um livro Clássico ou Romance e, por fim, título de não-ficção (não necessariamente nessa ordem).

Quinta-feira - COTIDIANO: vai ter textão, sim! E se reclamar, eu só lamento. Escrever é uma das minhas paixões, e eu não quero mais deixar isso de fora da minha vida. Então, toda quinta-feira, você vai ter a oportunidade de ler uma crônica, um conto, um texto reflexivo escrito pela minha pessoa exclusivamente para o blog, olha que legal!

Domingo - FILMES e SÉRIES: imagine você em casa numa tarde tarde bem preguiçosa... O seu sofá e o edredom estão implorando pra você ficar em casa, e a Netflix já avisou que hoje o dia é só de vocês dois. É aí entra aquela dúvida cruel: o que você vai assistir? O catálogo da Netflix parece até Caverna do Dragão, a gente entra e nunca mais sai. Mas calma que eu tô aqui pra te ajudar. Todo domingo, eu vou te dar uma indicação de filme ou série, pra você curtir seu dia preguiçoso no sofá da melhor forma possível. 

   Em resumo, esse é o principal conteúdo que você vai encontrar aqui no blog. Mas eventualmente, eu posso te trazer outras dicas e novidades dentro desse universo fantástico das narrativas em outros dias da semana também. Então, pra não perder absolutamente nada, é só curtir nossa página no Facebook, seguir nosso perfil no Instagram, seguir o blog e assinar a nossa Newsletter (os links estão aqui do lado, na barra lateral). E claro, deixar seu comentário é sempre bom, pois assim você me ajuda a trazer conteúdo de qualidade a cada nova postagem.

   A você que chega agora, ou que já acompanha esse meu pequeno espaço virtual: seja bem-vindo! Sinta-se a vontade para interagir comigo, deixar seu comentário e, claro, me convidar pra conhecer o seu espaço também! Vamos ler mais, vamos ler juntos!

Grande abraço e até a próxima!
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Leitor preguiçoso, não sai de casa sem levar um livro, é sentimental e só começa o dia depois de uma boa caneca de café.




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